“All I ever really needed to know I learned in kindergarten” – Robert Fulghum
A escola está passando por um momento de redefinição. Não se trata de uma opção, mas de uma necessidade vital. Ou as coisas mudam para um lado ou para o outro.
No atual contexto, podemos imaginar uma segregação intelectual. É o êxodo analógico.
Grande parte das pessoas que habitavam no mundo analógico, ainda que com muitas ferramentas tecnológicas, está sendo forçada a migrar para o mundo tecnológico. A promessa é de fartura, agilidade e desempenho. Uma pesquisa na internet já oferecia as informações necessárias para um aprendizado semelhante ao que a escola oferecia. No entanto, hoje, um único clique em uma “inteligência artificial” oferece uma ampla liberdade de conhecimento, com argumentos distintos, resumos de guerras intelectuais, e a sensação que fica é: para que serve a escola?
Socializar é o que logo vem à mente. E, como destaquei no subtítulo com a frase de Robert Fulghum, não se aprende muita coisa além das lições do jardim de infância. O problema começa após o aprendizado da leitura, na guerra política e cultural à qual todos nós somos submetidos. E, dentro de um desses conflitos, está a exclusão deliberada de um questionamento básico: existe algo de ruim para o ser humano em relação à tecnologia?
O motor a combustão oferece uma série de benefícios, mas houve algo de ruim? Deixamos de caminhar? Existe alguma relação entre ataques cardíacos e os carros? Podemos nos questionar, também, sobre a calculadora. Somente benefícios? Não pode ter ocorrido um tipo de atrofiamento cognitivo por não lidarmos mais com a matemática? Será que a frase “eu sou de humanas” não foi criada por algum aluno que descobriu que não precisaria mais saber matemática com o surgimento da calculadora?
Tudo que é criado possui o benefício e o malefício e, de alguma forma, atualmente, esse tipo de questionamento está em baixa. Percebemos os efeitos colaterais de certas tecnologias, mas não estamos nos relacionando com as causas certas. A mentalidade que algumas tecnologias acabam criando é muito maior do que a tecnologia em si. A televisão levou o homem para o sofá. A calculadora levou o homem para as “ciências humanas”.
A inteligência artificial está levando o homem para onde?
Você realmente acredita que para o paraíso da produtividade plena, da liberdade em relação ao trabalho, da melhoria técnica das coisas que o ser humano precisa?
Desafio qualquer um a mencionar o que aprende de fundamental depois das lições do jardim de infância. Compartilhar as coisas, jogar limpo, não bater nos coleguinhas, colocar as coisas de onde tirou, arrumar a própria bagunça, lavar as mãos, não colocar o dedo no nariz etc.
Houve uma época em que se falava em contracultura, pensando no que estávamos absorvendo com o excesso da cultura americana. Talvez, agora, um movimento parecido devesse nascer, se é que já não nasceu. Um movimento contracultura de urgência que prega a agilidade de um mecanismo misterioso que só traz benefícios e está aí para ajudar, somente para isso.
Desconfie dos lobos.