“A guerra não é um ato da vontade voltado para a matéria inanimada, como nas artes mecânicas… Mas é um ato da vontade voltado para uma entidade viva que reage.” – Carl von Clausewitz
Para muitos filósofos da guerra, essa entidade viva é o próprio inimigo. Quando transportamos esse princípio para a vida espiritual, percebemos que o combate também possui um adversário que responde aos nossos movimentos.
Não é por acaso que alguns santos desconfiam da vitória sobre a gula, a luxúria e a preguiça. São pecados que carregam uma publicidade contra si. A preguiça, por exemplo, é facilmente reconhecida. Em algum momento, quase todos somos levados a enfrentá-la. O problema é que ela troca de roupa. Continua sendo a mesma inimiga, mas passa a habitar circunstâncias muito mais difíceis de perceber.
Em certos momentos, ela abandona o sofá e veste um terno. Gosto de chamar esse fenômeno de procrastinação de colarinho branco. Quando um organismo parece funcionar perfeitamente, empilhar tarefas inúteis produz a confortável sensação de que a preguiça foi vencida.
Não foi. Ela apenas deixou de atacar o que fazemos com facilidade e passou a investir justamente naquilo que evitamos.
Alguns preferem fazer hora extra a voltar para casa. Outros lavam toda a louça apenas para adiar alguns minutos à mesa com os filhos. Há quem organize, planeje, responda e produza sem cessar, mas permanece adiando aquilo que realmente lhe foi confiado.
A guerra espiritual possui essa característica inquietante do aprendizado constante do inimigo.
À medida que mudamos, ele muda conosco. À medida que amadurecemos, ele abandona as tentações grosseiras e passa a oferecer versões mais sofisticadas das mesmas derrotas.
Talvez Clausewitz estivesse certo em mais sentidos do que imaginava. A guerra continua sendo travada contra uma entidade viva. O inimigo aprende, adapta-se e, quando tudo indica que vencemos, na verdade ele apenas trocou de roupa.