Nem todos possuem o seu próprio quarto, e nem todos que o possuem o tratam com o devido merecimento que essa peça merece.
O quarto, como símbolo, é o nosso lugar mais íntimo. É ali que exercemos nossos modos de organizar as coisas. É ali que nossos pensamentos podem ser vistos, inclusive por nós mesmos. O quarto é um reflexo da nossa vida interior.
Antes de sermos um grupo considerado humano e social, morávamos em cavernas e provavelmente já havia ali um início de quarto. Talvez um espaço bem específico, um buraco ou um agrupamento de pedras que cada indivíduo procurava para descansar e alegava ser seu por alguma instituição invisível, mas percebida. É como se recolher-se fosse voltar ao útero materno, onde ainda não havia comunicação e as coisas eram resolvidas de forma íntima e em silêncio. No útero, com a mãe. Fora dele, com Deus.
Ao fechar a porta do quarto, o mundo pode, e deve, ficar do lado de fora. Mas essa ideia tornou-se estranha e difícil de compreender. A tendência, agora, é recolher-se no quarto para conectar-se, de forma íntima e sem julgamentos, com o mundo.
O “mundo” tornou-se Deus.
Até bem pouco tempo atrás, as famílias lutavam contra o mundo para criar seus filhos. Precisavam vencer ideias anarquistas em nome de uma ordem que não sabiam explicar; apenas sabiam que era o certo a ser feito. Mas as famílias, que antes eram compostas por 20 ou 30 pessoas, com uma estrutura hierárquica que já educava sem pronunciar muita coisa, agora já não estão em um número tão expressivo, e perdeu-se a força, a hierarquia e talvez a luta contra o mundo. O quarto ainda era o último resquício de resistência nessa batalha, mas ele foi invadido, e perdemos mais esse terreno. O mundo precisava ganhar o quarto para declarar que a vitória sobre o espírito humano foi completa. O espírito que lutava pela liberdade agora já não sabe identificar nem mesmo o que isso significa.
O quarto já não é mais um lugar de reclusão e de recomposição física, mental e espiritual. Primeiro levamos livros, depois rádios e televisão; aprendemos a não nos desligarmos do mundo nem por um segundo. Da mesma forma que um cristão quer se ligar a Deus, o homem comum quer se ligar ao mundo. Aliás, o mundo ganhou ares de Deus, com seus próprios dogmas, hinos, orações, santos e igrejas. Quem não segue a cartilha está “fora” de uma “trend” e não receberá as benesses que esse novo deus oferece.
O mundo divulga sua doutrina por meio de tecnologias e da comunicação extremamente profissional.
Uma criança vai para o seu próprio quarto, cheio de brinquedos e possibilidades, mas leva o mundo dentro de um dispositivo. Ela está conectada, pois é assim que as coisas funcionam agora. Muitas barreiras foram derrubadas para se chegar até aqui, e tornou-se difícil identificar onde exatamente começamos a perder essa guerra. Tornou-se difícil, na verdade, falar abertamente sobre esse problema, o problema do quarto, com qualquer pessoa.
O mundo ofereceu convicções atacando e uma das nossas maiores fraquezas: a preguiça.
Uma convicção abraçada encerra o pensamento, e quanto mais rápido isso acontecer, menos energia é gasta na reflexão. A preguiça é também a de pensar e ela sempre esteve aí; o mundo apenas atacou nesse ponto fraco.
Já faz bastante tempo que estamos sendo alimentados por ideias e assuntos que gostamos e com os quais concordamos. É prazeroso ouvir elogios. Quando encontramos uma ideia que não compreendemos, que discorda do nosso ponto, nós nos sentimos cansados, irritados e ansiosos. Basta passar para o próximo vídeo para não precisarmos pensar mais sobre um contraditório. Basta não ouvir para se manter mentalmente deitado em uma rede com um pacote de bolachas.
Nos tornamos, há bastante tempo, uma sociedade de consumo, na qual o consumidor precisa ser atendido com comodidades, facilidades e direitos garantidos. Não há deveres para o consumidor além de efetuar o pagamento. Dessa forma, condicionamo-nos, todos nós, coletivamente, a essa ideia de conforto e de consumo.
E foi com a diminuição da força das famílias e a invasão do mundo dentro do nosso pequeno quarto que o dogma mundano substituiu o dogma cristão. O problema que me parece mais urgente de ser encarado é que o dogma do mundo não se diz dogma, mas se autointitula como avanço evolutivo natural e inevitável.
Talvez seja natural, talvez seja inevitável, mas eu desconfio que, se fosse esclarecido que se trata de uma prisão mental e espiritual invisível aos olhos humanos, grande parte das pessoas, do nosso grupo, dos nossos parentes e amigos, lutaria para manter seus quartos protegidos o máximo possível contra essa Invasão do Mundo.