{"id":1086,"date":"2026-04-02T09:38:38","date_gmt":"2026-04-02T12:38:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/?p=1086"},"modified":"2026-04-05T14:15:14","modified_gmt":"2026-04-05T17:15:14","slug":"a-publicidade-tailandesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/a-publicidade-tailandesa\/","title":{"rendered":"A PUBLICIDADE TAILANDESA"},"content":{"rendered":"\n<p>Algum comercial tailand\u00eas j\u00e1 deve ter passado pela sua timeline. O figurino costuma ser preenchido por fantasias caseiras de borboletas, mosquitos ou qualquer outro bicho, feitas com espumas e tintas de tecido. A narrativa teatral \u00e9 digna de uma apresenta\u00e7\u00e3o do terceiro ano do ensino prim\u00e1rio. Mas o que muda tudo, o que diferencia essas pe\u00e7as das que temos visto por aqui, \u00e9 a inclus\u00e3o quase fundamental de uma acidez retirada de churrascos de final de semana entre homens, regados a cerveja.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis o que parece ser a f\u00f3rmula de sucesso para um bom comercial tailand\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece tudo muito bem pensado. N\u00e3o sei como funciona no mercado tailand\u00eas, mas aqui no Brasil esse tipo de comercial tem conseguido quebrar barreiras que a publicidade atual n\u00e3o consegue.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Barreira N\u00famero 1 &#8211; Relat\u00f3rios, Dados e Vendas<\/h2>\n\n\n\n<p>Precisamos medir o desempenho e, sobre isso, ningu\u00e9m ir\u00e1 discordar. Os n\u00fameros precisam crescer: vendas, impress\u00f5es, compartilhamentos, engajamento etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as coisas mudaram, e a aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 escassa. Problemas que antes eram resolvidos por criativos, redatores, designers e roteiristas agora s\u00e3o resolvidos na \u201csala de justi\u00e7a\u201d por gestores especialistas em an\u00e1lise de dados.<\/p>\n\n\n\n<p>A burocracia \u00e9 um mecanismo antigo de procrastina\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil para um ser humano cair na armadilha burocr\u00e1tica. Como diz aquela frase: \u201c\u00e9 preciso ter calma antes de ter pressa\u201d. No meio de tanta press\u00e3o, com uma avalanche de informa\u00e7\u00f5es e a sensa\u00e7\u00e3o quase t\u00e1til de urg\u00eancia, a burocracia oferece, pelo menos, um feedback claro e calmante: tarefa conclu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para incluir a \u201cacidez\u201d e a com\u00e9dia em um comercial, \u00e9 preciso pensar muito para conhecer o p\u00fablico e, principalmente, vencer muitas obje\u00e7\u00f5es. Ao considerar um comercial como uma pe\u00e7a de entretenimento, os tailandeses encararam o verdadeiro concorrente da publicidade: o entretenimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Um comercial que tenta vender sem entreter ser\u00e1 descartado rapidamente por um stories de uma pessoa comum. Ou seja, ser\u00e1 derrotado por uma imensa cauda longa (longu\u00edssima), em que toda e qualquer pessoa pode ser um concorrente para um comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>Acidez e com\u00e9dia s\u00e3o o que mais circula nas redes sociais. \u00c9 o ser humano sendo humano e natural, fazendo piadas uns com os outros e se relacionando. \u00c9 o ser humano tentando encontrar significado, vencer o t\u00e9dio e se relacionar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Barreira N\u00famero 2 &#8211; Cancelamento<\/h2>\n\n\n\n<p>Esse tal de cancelamento nada mais \u00e9 do que aquele medo que t\u00ednhamos de ir para o col\u00e9gio no dia ap\u00f3s a m\u00e3e ter a brilhante ideia de cortar o nosso cabelo. Era o medo de receber um apelido e ser difamado pelo resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele tempo, o da escola, era algo como gostar ou n\u00e3o gostar, e o que o nosso cora\u00e7\u00e3o sentia sobre isso. Mas a linguagem \u00e9 dura com os jovens, e os jovens crescem e se tornam adultos e velhos. O medo \u00e9 compartilhado pela linguagem, e a palavra \u201ccancelamento\u201d \u00e9 uma senten\u00e7a cruel para um agente digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas reais s\u00e3o atacadas por esse vil\u00e3o lingu\u00edstico, que utiliza o mundo digital para invadir o esp\u00edrito comum. O medo \u00e9 uma doen\u00e7a contagiosa, e o medo do cancelamento invadiu a publicidade brasileira j\u00e1 faz um bom tempo. Uma crian\u00e7a sente medo dessa palavra; um empres\u00e1rio n\u00e3o pode nem mesmo ouvir falar.<\/p>\n\n\n\n<p>O cancelamento est\u00e1 a\u00ed, \u00e0 espreita de qualquer trope\u00e7o. Imagine inserir acidez e com\u00e9dia em um comercial. O risco \u00e9 imenso, e o medo est\u00e1 espalhado e escondido ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Barreira N\u00famero 3 &#8211; Linguagem, Pensamento e Liberdade<\/h2>\n\n\n\n<p>Por aqui, os grupos que gritarem mais alto ser\u00e3o recompensados ou protegidos pela lei, e sua linguagem ser\u00e1 devidamente respeitada. Mas a linguagem \u00e9 o pensamento expresso e, se alguns pensamentos s\u00e3o considerados dignos de cancelamento, temos um crime de pensar sobre certas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos pensar em psicopatas e afins, mas n\u00e3o \u00e9 o caso. A \u201clei\u201d do cancelamento social \u00e9 sutil e complexa, quase invis\u00edvel, e ningu\u00e9m pode dizer que a leu em algum lugar; ningu\u00e9m pode dizer como ela funciona. \u00c9 um inimigo \u00e0 espreita em qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um comercial tailand\u00eas jamais seria permitido no Brasil. Seria considerado criminoso por algum \u00f3rg\u00e3o que \u201cprotege\u201d o povo dos perigos da linguagem. Mas o sucesso dessas pe\u00e7as \u00e9 ineg\u00e1vel. Voc\u00ea pode verificar os n\u00fameros, dados, compartilhamentos e coment\u00e1rios e perceber que se trata de algo interessante para o p\u00fablico brasileiro, inclusive. As pessoas gostam, mesmo sabendo que n\u00e3o poderia ser feito, que \u00e9 errado, que \u00e9 um crime digno da mais alta senten\u00e7a digital. \u00c9 digno de cancelamento.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se tornou natural pensar que se trata de um \u201ccrime\u201d pensar, que ser\u00e1 punido por aquele desconhecido \u00f3rg\u00e3o que nos protege, sem a nossa vontade, dos perigos da linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 li algo muito parecido com isso em 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicit\u00e1rios e empres\u00e1rios observaram com certa alegria as piadas tailandesas. Imaginam que a produ\u00e7\u00e3o aparentemente simples daquelas pe\u00e7as caberia no or\u00e7amento de marketing. Mas, em seguida, vem um suspiro lamentoso pela evidente impossibilidade de fazer esse tipo de an\u00fancio.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, n\u00e3o se pode misturar com\u00e9dia, acidez e linguagem livre. A linguagem n\u00e3o \u00e9 livre para todos. Caso voc\u00ea queira brincar de liberdade lingu\u00edstica, a pena \u00e9 a de ser considerado algo muito ruim dentro da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea poder\u00e1 receber um apelido de cancelamento; existe uma lista que circula pela internet, em forma de adjetivos desconexos e abstratos, que costumam dizer duas coisas opostas ao mesmo tempo (escravid\u00e3o \u00e9 liberdade), mas com um sentimentalismo \u00e0 flor da pele que pega os distra\u00eddos de surpresa e os ataca pelo medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto nada muda por aqui, vamos assistindo aos comerciais tailandeses sem saber de que produto est\u00e3o falando, como quem assiste a um programa de com\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algum comercial tailand\u00eas j\u00e1 deve ter passado pela sua timeline. O figurino costuma ser preenchido por fantasias caseiras de borboletas, mosquitos ou qualquer outro bicho, feitas com espumas e tintas de tecido. 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