{"id":208,"date":"2023-07-19T15:13:14","date_gmt":"2023-07-19T18:13:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/?p=208"},"modified":"2025-07-02T17:13:24","modified_gmt":"2025-07-02T20:13:24","slug":"cultura-brasileira-soft-power","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/cultura-brasileira-soft-power\/","title":{"rendered":"CULTURA BRASILEIRA (SOFT POWER)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em teoria, seria muito f\u00e1cil editar uma publica\u00e7\u00e3o, dizer que se expressou mal e assumir que cometeu um equ\u00edvoco de informa\u00e7\u00e3o. Mas, simplesmente, n\u00e3o \u00e9 assim que a banda toca. N\u00e3o me refiro a erros de gram\u00e1tica, que\u00a0n\u00e3o est\u00e3o mais na moda pois ningu\u00e9m mais sabe gram\u00e1tica, nem a erros de digita\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 o argumento e o modo como as pessoas se expressam. Muita gente n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de ofender, \u00e0s vezes nem tinha a inten\u00e7\u00e3o de dizer aquilo que o outro compreendeu. \u00c9 mais f\u00e1cil acertar em sil\u00eancio do que falando alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pense na estrutura. Eu imagino algo, um sentimento, e preciso usar algumas palavras para express\u00e1-lo. Quando esse pensamento \u00e9 exposto, seja qual for o meio utilizado, ele passa por uma s\u00e9rie de etapas. A outra pessoa precisa ouvir as palavras ditas, interpret\u00e1-las e raciocinar a respeito. Duas pessoas, facilmente, pensam coisas diferentes, at\u00e9 opostas, sobre a mesma palavra, e dessa forma ca\u00edmos na impossibilidade de seguir uma conversa sem o debate acalorado e improdutivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas por qu\u00ea ainda n\u00e3o temos a capacidade de assumir o equ\u00edvoco, desculpar-se e seguir em frente, para frente? As teorias s\u00e3o muitas, mas, como costumamos pensar por aqui, podemos verificar algumas coisas dentro do futebol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, seria necess\u00e1rio que uma nova estrat\u00e9gia estivesse em vigor, um outro tipo de comportamento se tornasse comum. Precisar\u00edamos de uma nova cultura; por exemplo, seria preciso parar de simular faltas, de acusar golpes no rosto quando o advers\u00e1rio toca no ombro; seria preciso d\u00e9cadas de conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s consideramos que o futebol \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da cultura em que ele est\u00e1 inserido. Sempre que alguns aspectos do jogo s\u00e3o observados com aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel perceber parte da cultura de um povo, pa\u00eds ou grupo. Simular faltas, mentir sobre uma agress\u00e3o que n\u00e3o ocorreu para ganhar vantagem em cima do advers\u00e1rio, para um brasileiro pode parecer apenas um ingredientes do jogo, mas sem d\u00favidas, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter. Como poder\u00edamos desculpar-nos e seguir em frente enquanto provocamos equ\u00edvocos com farsas e encena\u00e7\u00f5es para ganhar vantagem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Copa do Mundo de 2014<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, um clima estranho estava no ar. O Brasil nunca est\u00e1 livre de complica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, seja por conta de den\u00fancias, esc\u00e2ndalos midi\u00e1ticos, protestos ou suspeitas. Aqui, um esc\u00e2ndalo n\u00e3o escandaliza ningu\u00e9m. Por\u00e9m, mesmo com muitas pessoas acreditando que o fato das Olimp\u00edadas e a Copa do Mundo virem parar aqui por conta da concretiza\u00e7\u00e3o de um Brasil do futuro, era muita esmola e quando a esmola \u00e9 demais, o santo que j\u00e1 \u00e9 desconfiado, desconfia ainda mais. De qualquer forma, o brasileiro estava feliz com a Copa do Mundo em seu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas desconfian\u00e7as se comprovaram anos depois, muita coisa foi julgada, muito dinheiro envolvido muito desvio de verba nesse caminho. Tudo normal para um brasileiro comum. Mesmo assim, naquele momento da Copa, o que importava era a Sele\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia j\u00e1 estava divulgando um slogan: &#8220;Sele\u00e7\u00e3o Guerreira&#8221;. Os jogadores entravam em campo em uma tradicional fila, cada jogador com a m\u00e3o direita apoiada no ombro do jogador que estava \u00e0 frente. Um resgate do significado de coes\u00e3o que o time campe\u00e3o de 1994 deixou. Em 94, eles entraram de m\u00e3os dadas, agora, dessa forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro jogo foi entre Brasil e Cro\u00e1cia. Os advers\u00e1rios organizados estavam jogando muito bem. Fortes e obedientes, os croatas acenderam um alerta sobre o nosso time. O Brasil, treinado por Luiz Felipe Scolari, o Felip\u00e3o, parecia fr\u00e1gil e nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de tudo, havia um problema de natureza abstrata: o Brasil teria vendido o t\u00edtulo da Copa de 98 em troca de ser sede em 2014. Naquela ocasi\u00e3o, Ronaldo Naz\u00e1rio, o maior craque da d\u00e9cada de 90 e 2000, teria sofrido uma convuls\u00e3o horas antes de entrar em campo. Foi um gatilho forte para a imagina\u00e7\u00e3o do brasileiro, acostumado com corrup\u00e7\u00e3o e carente de tramas liter\u00e1rias. Diziam que Ronaldo n\u00e3o teria aceitado vender o resultado e n\u00e3o queria entrar em campo, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1&#8230; O que ficou foi a desconfian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, tudo \u00e9 vaidade e corrup\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 por acaso que as revistas de fofoca sobreviveram por anos aqui no Brasil. O sujeito comum \u00e9 viciado em novidades, mesmo que seja uma inven\u00e7\u00e3o ou uma tagarelice. Poucas pessoas sentem a responsabilidade sobre as opini\u00f5es emitidas. De qualquer forma, verdade ou n\u00e3o, a tese era a seguinte: o Brasil havia entregado o jogo contra a Fran\u00e7a em 1998 para tornar-se sede da Copa do Mundo em 2014. Nos tornamos sede e o clima ficou estranho. Seria mesmo tudo uma farsa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil, diferente de pa\u00edses como os Estados Unidos, n\u00e3o possui variedades esportivas bem estruturadas. Aqui, o futebol impera soberano. N\u00e3o existe h\u00f3quei no gelo, basquete, futebol americano, ciclismo, automobilismo, beisebol, etc&#8230; Aqui, qualquer outra modalidade \u00e9 insignificante se comparada ao tamanho, investimento e estrutura que o futebol possui. Al\u00e9m disso, o Brasil \u00e9 o maior campe\u00e3o de Copas e o maior exportador de jogadores do mundo. Para o brasileiro n\u00e3o \u00e9 suficiente ver o seu time vencer, pois n\u00f3s j\u00e1 dominamos o esporte, o brasileiro quer ver seu time vencer jogando bem, e nesse momento, jogar bem era fundamental para acabar com qualquer d\u00favida sobre a influ\u00eancia da corrup\u00e7\u00e3o sobre as nossas vit\u00f3rias e derrotas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Maracan\u00e3 estava lotado. O advers\u00e1rio, sem tradi\u00e7\u00e3o alguma, naquele momento, nos empurrava. Nosso time n\u00e3o jogava bem at\u00e9 que Fred, o atacante, caiu na \u00e1rea. P\u00eanalti. Ele foi tocado no ombro. Sim, um toque que certamente n\u00e3o mataria nem um mosquito. Mas ele caiu sentindo dores terr\u00edveis. A verdade \u00e9 que n\u00e3o houve falta, n\u00e3o houve for\u00e7a, foi uma simula\u00e7\u00e3o que todos est\u00e3o acostumados a enxergar dentro das principais ligas brasileiras. Os goleiros sofrem dores nas costelas quando defendem uma bola dif\u00edcil. Os atacantes caem e se retorcem de dor por mais de dez metros sem nem mesmo terem sido tocados. Faz parte do esporte e \u00e9 considerado uma simula\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel. Mesmo que nenhum torcedor sinta-se honrado por essa simula\u00e7\u00e3o, sabe-se que em casos de jogos dif\u00edceis, contra advers\u00e1rios tradicionais, ningu\u00e9m reclama quando a &#8220;cera&#8221; \u00e9 a favor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas naquele momento a simula\u00e7\u00e3o do nosso atacante estava sendo assistida por mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas. Ele estava representando o pa\u00eds. Ele estava representando a cultura que praticamos por aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse dia, eu estava em um bar lotado. A euforia inicial da marca\u00e7\u00e3o do p\u00eanalti logo foi substitu\u00edda por uma desilus\u00e3o coletiva. Aquela desconfian\u00e7a sobre 98 voltou a pairar no ar e foi como se enxergar em um espelho. Fred caiu e mostrou tudo o que n\u00e3o gostamos de ver. Temos pot\u00eancia, mas simulamos uma falta dentro da \u00e1rea para subtrair um advers\u00e1rio fraco e inexpressivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jeitinho brasileiro n\u00e3o caiu bem. Foi como se aquela queda comprovasse o compl\u00f4 da copa de 1998 e tudo de mais ordin\u00e1rio que temos em nossa cultura. Soma-se a essa desconfian\u00e7a o fato de que no Rio Grande do Sul, em 2005, um dos times da capital foi prejudicado por uma dessas articula\u00e7\u00f5es corruptas, com testemunhas e v\u00e1rios processos que ocorreram e desmascararam a compra do campeonato em favor de um esquema de apostas. Essa desconfian\u00e7a sempre ocorreu no esporte por motivos reais e imagin\u00e1rios. Mas, por conta de uma tentativa social constante de erguer a cabe\u00e7a e ter orgulho de si, nessa Copa, a de 2014, era importante erguer o caneco, mas acima de tudo, era importante erguer o caneco da dignidade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00e1 impress\u00e3o que aquele p\u00eanalti causou foi relatada, inclusive, pelo pr\u00f3prio Fred. Ningu\u00e9m queria que o Brasil ganhasse por conta de um p\u00eanalti simulado, talvez nem mesmo se fosse coerente. Talvez, naquele instante, o brasileiro tenha sentido o sabor da pr\u00f3pria cultura. Naquele momento, o brasileiro sentiu um olhar de fora observando a si mesmo e pudemos ler a mensagem que enviamos ao mundo. Na vida real, o jeitinho brasileiro n\u00e3o \u00e9 motivo de orgulho. O futebol representa a vida real, muito bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mensagem foi al\u00e9m dessa simula\u00e7\u00e3o. Nossos atletas se mostraram fracos, caindo, fingindo se machucar e chorando ap\u00f3s a derrota. A Alemanha venceu a Copa e humilhou o Brasil. Ficamos com uma s\u00e9rie de recados e muitos pontos para melhorar nossa forma de lidar com o mundo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fred2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-220\" width=\"740\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fred2.jpg 740w, https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fred2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Fred, o camisa 9, marcou apenas um gol nos seis jogos disputados, foi o \u00fanico atleta do elenco xingado no<\/sub><br><sub>Mineir\u00e3o e vaiado pela torcida ap\u00f3s a derrota na semifinal.<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a Copa de 2014, as equipes mudaram um pouco no Brasil. O jogo tornou-se mais t\u00e1tico no campeonato brasileiro. A qualidade dos jogos melhorou, o desempenho f\u00edsico melhorou e os nossos jogadores, apesar de n\u00e3o brilharem tanto, est\u00e3o num padr\u00e3o mais elevado de maneira geral. No momento, em 2023, os maiores craques n\u00e3o s\u00e3o mais os brasileiros, mas, de qualquer forma, o jogo t\u00e1tico e f\u00edsico tornou-se mais comum. De maneira geral, o futebol melhorou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, e o ensinamento sobre a queda do Fred? Qual \u00e9 o sentido do futebol para as pessoas que o assistem? Um soldado aguerrido que n\u00e3o simula a batalha e encara o seu advers\u00e1rio at\u00e9 a morte, recebe uma medalha de honra. Nenhum soldado desertor \u00e9 aplaudido em seu retorno. Ningu\u00e9m \u00e9 aplaudido por simular uma les\u00e3o. As regras da guerra se aplicam ao futebol e desabar quando se \u00e9 tocado no ombro n\u00e3o \u00e9 algo que se espera de um soldado. \u00c9 parte do jogo no sentido de op\u00e7\u00e3o, pois sempre existe a op\u00e7\u00e3o da desonra, da deslealdade e da falsidade. Mas ningu\u00e9m aplaude essas decis\u00f5es e o nosso jogo ainda&nbsp; \u00e9 preenchido por essas simula\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagine o efeito cultural que teria um pedido de desculpas do jogador brasileiro dizendo que n\u00e3o havia ocorrido o penalti. O Brasil teria sa\u00eddo de cabe\u00e7a erguida daquela Copa. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os jogadores representam a cultura, a cultura que representa o povo e o povo que se viu naquela queda n\u00e3o gostou do que viu.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em teoria, seria muito f\u00e1cil editar uma publica\u00e7\u00e3o, dizer que se expressou mal e assumir que cometeu um equ\u00edvoco de informa\u00e7\u00e3o. Mas, simplesmente, n\u00e3o \u00e9 assim que a banda toca. N\u00e3o me refiro a erros de gram\u00e1tica, que\u00a0n\u00e3o est\u00e3o mais na moda pois ningu\u00e9m mais sabe gram\u00e1tica, nem a erros de digita\u00e7\u00e3o. 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