{"id":448,"date":"2023-10-16T08:02:11","date_gmt":"2023-10-16T11:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/?p=448"},"modified":"2023-10-20T10:52:15","modified_gmt":"2023-10-20T13:52:15","slug":"no-nosso-da-razao-habita-um-oceano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/no-nosso-da-razao-habita-um-oceano\/","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s da raz\u00e3o habita um oceano"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A essa altura do campeonato, j\u00e1 dever\u00edamos ter percebido que a raz\u00e3o n\u00e3o explica o fundamental. A raz\u00e3o \u00e9 um alicerce para a casa, cuidando da parte est\u00e9tica e da ordena\u00e7\u00e3o dos aposentos. No entanto, deixar \u00e0 raz\u00e3o a responsabilidade pela estrutura e pelos pilares que sustentam a casa pode ter sido um dos trope\u00e7os do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A impress\u00e3o que temos de nosso tempo deveria ser um retrospecto dos tempos que j\u00e1 se passaram, o passado de nossas vidas. Parece \u00f3bvio, mas o fluxo da hist\u00f3ria dos fatos e as correntes mais profundas que guiam as \u00e1guas da consci\u00eancia coletiva ainda permanecem encobertos e misteriosos para a quase completa maioria de n\u00f3s. O fato \u00e9 que o passado, hoje, \u00e9 considerado not\u00edcia de ontem e, mesmo com a falta de jornais impressos, ele s\u00f3 serve para enrolar peixe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradi\u00e7\u00e3o, que em outros tempos guiou as novas atitudes ou, pelo menos, representou os degraus para o topo do terra\u00e7o no qual s\u00f3 conseguimos chegar pelos ombros desses personagens que j\u00e1 foram, deixou de ser uma escada para tornar-se uma pris\u00e3o: a pris\u00e3o el\u00e1stica da tradi\u00e7\u00e3o que se expande \u00e0 medida que \u00e9 trilhada, mas nunca deixa de aprisionar o sujeito, pois ele sente que deve ao inv\u00e9s de que pode. Ou seja, dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o, o sujeito tem mais deveres do que direitos, mais obriga\u00e7\u00f5es do que divers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos imaginar a alegria de um homem moderno, coletivamente moderno, que encontrou em si a liberdade dessa pris\u00e3o do passado, que \u00e9 inferior e indigna de continuidade. Mas, ao mesmo tempo, podemos tamb\u00e9m imaginar um homem angustiado, coletivamente angustiado, que j\u00e1 n\u00e3o sabe para onde ir dentro dessa suposta liberdade que foi conquistada pela deteriora\u00e7\u00e3o de tudo que vinha da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa ang\u00fastia coletiva \u00e9 um efeito colateral, e seja qual for a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontr\u00e1ssemos, algum efeito colateral haveria de existir. Para muitos, trata-se apenas de um per\u00edodo em que as recompensas ainda est\u00e3o por vir. Esse &#8220;por vir&#8221;, ligado \u00e0 liberdade plena, tem seus defensores que acreditam ser um momento de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 fluidez das novas institui\u00e7\u00f5es sociais. A sociedade l\u00edquida ainda n\u00e3o aprendeu a conter a \u00e1gua em suas pr\u00f3prias m\u00e3os, mas n\u00e3o morre de sede, pois tudo est\u00e1 inclu\u00eddo em tudo. N\u00e3o h\u00e1 mais penaliza\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o h\u00e1 mais hierarquias formais. Tudo pode acontecer, tudo \u00e9 permitido, pois viver a liberdade \u00e9 a grande sacada deste nosso tempo. N\u00e3o h\u00e1 escadas, pois tudo \u00e9 horizontal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, viver a liberdade que n\u00e3o foi saboreada pelos mais antigos nos sugere, por rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, que em nosso tempo a plenitude foi conquistada \u00e0 medida que naturalmente evolu\u00edmos. Algumas ideias do passado foram concretizadas em nossa vida e por meio do racioc\u00ednio, que nos libertou das amarras do misticismo e da hierarquia, agora podemos gozar da plenitude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, outros efeitos colaterais precisam ser inclu\u00eddos nessa grande equa\u00e7\u00e3o que \u00e9 a humanidade. Nos tornamos seres racionais, sim. Mas, ao que parece, somos dotados de uma infeliz tend\u00eancia a enxergar as coisas de forma reduzida, for\u00e7ando tudo e todos a se encaixarem em forminhas bem pequenas. De alguma forma, n\u00e3o enxergamos a realidade de que o conte\u00fado ou transborda ou a forminha quebra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura da raz\u00e3o nos levou a abandonar o que apenas sent\u00edamos. Tudo precisou passar pelos criteriosos testes da explica\u00e7\u00e3o racional. O que n\u00e3o foi aprovado nesse teste tratou de ser descartado. Um teste, uma forminha. Tratou-se de excluir uma por\u00e7\u00e3o de coisas da experi\u00eancia humana sem medir os efeitos colaterais de tais exclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem massa foi sendo pasteurizado aos poucos, sendo levado a acreditar que s\u00f3 a raz\u00e3o poderia lev\u00e1-lo ao destino pleno da exist\u00eancia. Dessa forma, outra forma l\u00f3gica, o que n\u00e3o era pass\u00edvel de explica\u00e7\u00e3o racional tornou-se descart\u00e1vel, e descartar tornou-se chique. Dessa maneira, com narizes empinados de \u00f3culos de intelectuais, ensinamentos milenares foram simplesmente exclu\u00eddos do repert\u00f3rio comum, deixando, agora, o homem manco, coletivamente manco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa cultura, nossa religi\u00e3o exteriorizada em atos concretos, nada mais \u00e9 do que o fruto de uma mentalidade vigente em determinado per\u00edodo. Entre rupturas e encontros, a degrada\u00e7\u00e3o parece ser uma tend\u00eancia, e o homem massa \u00e9 a grande vitrine desses movimentos. Observar o homem massa \u00e9 o mesmo que observar a mentalidade vigente em que estamos inseridos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A raz\u00e3o \u00e9 uma ideia que soa muito bem e \u00e9 comercialmente muito poderosa. Por\u00e9m, quando tudo \u00e9 raz\u00e3o, o homem perde algo que s\u00f3 ele carrega dentro de si e n\u00e3o pode ser nem exposto nem tocado. Temos uma lama e uma consci\u00eancia individual habita em algum lugar ainda desconhecido. Os movimentos sociais, por mais que tentem ser manipulados pelo racioc\u00ednio, tendem a ganhar for\u00e7a e tra\u00e7\u00e3o de forma independente, guiados por for\u00e7as que n\u00e3o compreendemos em sua totalidade. A realidade \u00e9 muito mais complexa do que um movimento pol\u00edtico, uma an\u00e1lise sobre os fatos hist\u00f3ricos e a caminhada cient\u00edfica para explicar os fen\u00f4menos. A realidade n\u00e3o parece ser algo que possa ser explicado com hist\u00f3rias reduzidas apenas \u00e0s explica\u00e7\u00f5es racionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o chegamos \u00e0 plenitude alguma. N\u00e3o nos foi dada a liberdade de excluir a tradi\u00e7\u00e3o, mesmo assim exclu\u00edmos e o efeito colateral \u00e9 o de amaldi\u00e7oar os mais jovens em um rein\u00edcio, uma busca cansativa atr\u00e1s de pegadas quase apagadas sobre o que foi feito e pensado anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora vemos a lista de efeitos colaterais crescendo e ficamos perplexos com aquela sensa\u00e7\u00e3o de que no passado n\u00e3o era assim. Vemos jovens viciados, imbecilizados, e a massa da cultura nos chamando para o decl\u00ednio. Parece que n\u00e3o podemos nos diferenciar de forma coletiva de uma civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-civilizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa conectividade e toda a intelig\u00eancia por tr\u00e1s dessa descoberta ou inven\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o nos levou a dar meia d\u00fazia de passos. Todo esse aparato racional e te\u00f3rico parece apenas ter nos distanciado ainda mais da plenitude que julgamos, racionalmente, saber onde mora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"416\" data-id=\"459\" src=\"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/massa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-459\" srcset=\"https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/massa.jpg 740w, https:\/\/mentalidadedeatleta.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/massa-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem massa parece perdido em meio a in\u00fameras ruas e avenidas, sem saber o endere\u00e7o do pr\u00f3prio destino. Ele precisar\u00e1 vagar por a\u00ed perguntando em cada esquina se algu\u00e9m sabe onde fica uma casa assim e assado, com tais cores, de tal forma. Os mais sinceros poder\u00e3o ser encontrados aos prantos como quem se perde dos pais, e n\u00e3o sabem o nome da rua em que moram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltar \u00e0 casa ser\u00e1 uma nova jornada do her\u00f3i, e parece que essas hist\u00f3rias individuais de her\u00f3is que se perdem sem querer ou s\u00e3o guiados por algo que a nossa raz\u00e3o jamais ir\u00e1 explicar, constr\u00f3em o nosso futuro sem explica\u00e7\u00e3o racional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredite, a raz\u00e3o n\u00e3o explica tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A essa altura do campeonato, j\u00e1 dever\u00edamos ter percebido que a raz\u00e3o n\u00e3o explica o fundamental. A raz\u00e3o \u00e9 um alicerce para a casa, cuidando da parte est\u00e9tica e da ordena\u00e7\u00e3o dos aposentos. 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