Acabei de assinar o Youtube Music e estou me sentindo como um brasileiro quando visita um país onde o assalto não é cultural. Certamente essa sensação irá passar, mas já são três dias em que eu ainda não consegui relaxar a atenção e deixar de esperar por aquela interrupção mal-educada de um anúncio.
A interrupção fica. Leva-se alguns minutos para se concentrar plenamente em algo. Leva-se minutos para se livrar daqueles 5 segundos que o Youtube (Grátis) te obriga a passar para continuar assistindo a alguma coisa.
É humilhante. Eu ainda não tinha me dado conta. Ter receio de ser assaltado é humilhante. Buzinas no trânsito são humilhantes. Os números brasileiros em relação a muitas coisas ruins são extremamente humilhantes. Mas, pelo mesmo tipo de condicionamento que o Youtube faz com a nossa mente, não percebemos mais nada e simplesmente tentamos nos concentrar já contando com aquela interrupção incômoda, indesejada, mas aparentemente inevitável.
Aliás, ela é evitável por, pelo menos, R$35,00. O problema é que a maioria não pode pagar para não ser importunado e precisa conviver com o que se apresenta. A maioria não pode viver em algum bairro chique ou migrar para outro país. A maioria precisa aceitar a realidade possível e conviver com essa interrupção degradante que os problemas causam quando não são resolvidos.
Essa história de anúncios do Youtube, muito provavelmente, é o que sustenta a plataforma. É a democracia do conteúdo. Todos têm acesso, contando que assistam a alguns comerciais com o volume um pouco mais alto do que o vídeo que você estava assistindo. São só 5 segundos, eventualmente serão incluídos alguns de 10 segundos. Mas pense bem, os conteúdos são gratuitos.
Conteúdos?
Pelo que consta, o brasileiro médio é consumido por conteúdos por pelo menos 5 horas por dia. Não há atenção que resista a esse condicionamento. São, sendo otimista, cerca de 200 vídeos diferentes, com piadas, refrões, anúncios, animais, danças, frases motivacionais, e, mesmo que fosse tudo sobre filosofia ou qualquer coisa muito bem quista para o bem humano, seriam 200 coisas diferentes a cada dia. Ninguém compreende nada dessa forma, ninguém capta nada dessa forma e ninguém irá sair do raso dessa maneira.
Em algum momento nós passamos a acreditar que, quanto mais conteúdo tivéssemos, quanto mais rápido pudéssemos absorver uma ideia, nos tornaremos melhor.
Agora o estrago já está feito. Nem conseguimos mais imaginar uma situação onde o final de semana é regado a um livro, silêncio e reflexão. Nos acostumamos com anúncios, nos acostumamos com conhecimentos reduzidos.
Vocês não acham que tem alguma coisa muito errada, mas fazendo tudo certo, para que essa ansiedade generalizada seja um padrão banalizado hoje em dia?