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A INTERRUPÇÃO

Posted on 12 de fevereiro de 202619 de junho de 2026

Acabei de assinar o Youtube Music e estou me sentindo como um brasileiro quando visita um país onde o assalto não é cultural.

Certamente essa sensação irá passar. Mas já são três dias em que ainda não consegui relaxar completamente. Em algum lugar da minha atenção, continuo esperando aquela interrupção mal-educada de um anúncio. É curioso perceber como ela permanece mesmo depois que desaparece.

Leva alguns minutos para entrar de verdade em uma música, uma leitura ou uma linha de raciocínio. Mas bastam cinco segundos para quebrar tudo. Cinco segundos para lembrar que sua atenção não lhe pertence inteiramente. Quando o anúncio termina, a interrupção continua ali, espalhada pelos minutos seguintes.

Talvez por isso eu tenha pensado em outras interrupções que aprendemos a aceitar. O receio constante de ser assaltado. As buzinas que nunca cessam. O barulho permanente. Os números brasileiros relacionados a tantas coisas que deveriam nos constranger. São interrupções diferentes, mas produzem um efeito semelhante: um estado contínuo de alerta.

O mais impressionante é que, depois de algum tempo, deixamos de perceber. Fazemos com a vida o mesmo que fazemos com o Youtube. Tentamos nos concentrar já contando com a próxima interrupção. Ela se torna incômoda, indesejada e, ao mesmo tempo, aparentemente inevitável.

No caso dos anúncios, existe uma saída simples: pagar para não ser importunado. No caso dos problemas reais, a maioria das pessoas não dispõe da mesma alternativa. Não pode mudar de bairro, trocar de cidade ou migrar para outro país. Precisa conviver com a realidade possível e adaptar-se a ela.

E adaptar-se, nem sempre, é uma virtude.

Essa história dos anúncios provavelmente sustenta a própria plataforma. É a democracia do conteúdo: todos têm acesso, desde que aceitem assistir a alguns comerciais. São apenas alguns segundos. Eventualmente dez. Afinal, os conteúdos são gratuitos.

Mas talvez valha a pena perguntar o que estamos chamando de conteúdo.

Pelo que consta, o brasileiro médio passa horas por dia consumindo vídeos, cortes, comentários, piadas, refrões, notícias, anúncios e opiniões. Mesmo sendo otimista, estamos falando de centenas de estímulos diferentes atravessando a mente todos os dias. E mesmo que todos fossem excelentes, continuariam sendo fragmentos.

Ninguém compreende profundamente duzentas coisas por dia. Ninguém desenvolve pensamento consistente saltando de assunto em assunto, de tela em tela, de interrupção em interrupção.

Em algum momento passamos a acreditar que aprender mais significa consumir mais. Que conhecimento é uma questão de velocidade. Que entender alguma coisa é o mesmo que passar por ela. Talvez seja justamente o contrário.

Talvez a compreensão dependa menos da quantidade de informação e mais da ausência de interrupções. Menos da velocidade e mais da permanência. Menos do consumo e mais da contemplação.

Mas já nos acostumamos tanto ao ruído que o silêncio começa a parecer estranho. Um final de semana regado a um livro, algum tempo livre e reflexão já parece uma atividade exótica. Nos acostumamos aos anúncios. Nos acostumamos aos conhecimentos reduzidos. Nos acostumamos à dispersão.

E talvez exista algo profundamente errado em uma sociedade que faz tudo isso parecer normal.

Talvez a ansiedade generalizada não seja um acidente do nosso tempo.

Talvez ela seja o preço.

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