A Coragem do Conflito
Como não ser fascinado por um homem que escolhe o atrito sempre que o descanso parece ser a opção mais sensata?
Jimmy McGill — ou Better Call Saul — jamais toma decisões palatáveis aos olhos do público porque o seu objetivo nunca foi a paz. Ele é apaixonado pelo próprio ofício, e aquilo que ele faz em nada se assemelha ao que convencionamos chamar de uma vida pacata.
Logo nas primeiras cenas, fica claro o destino inescapável: a prisão ou o cemitério. Há nele uma fúria contida, uma instabilidade congênita que faz dele uma anomalia ambulante. Jimmy não apenas tolera a desordem; ele a busca. Foi concebido nela, e é para o caos que ele retorna quando procura abrigo. Quando lhe deram um emprego estável em uma empresa corporativa, o roteiro fez questão de filmar a rotina como um deserto apático, sem sangue e sem movimento. Entediado, Saul sabotou a própria segurança. Dinamitou qualquer chance de uma existência comum, domesticada e previsível.
O público assiste perplexo à própria cumplicidade. Sabemos, antes e melhor do que qualquer personagem em tela, que Jimmy é um criminoso e um mau-caráter. Vemos a falsificação de provas, o suborno de testemunhas e a retórica torpe usada para benefício próprio. Sabemos que, na ponta da linha, ele trabalha para o cartel e deixa um rastro de destruição. Ainda assim, é impossível não torcer por ele.
O que nos prende a Saul não é o crime — é a sua disposição para a batalha.
Num mundo anestesiado pelo comodismo, a coragem de sustentar o conflito é uma virtude rara. Mesmo quando motivado por uma patologia, ele encara o abismo com a naturalidade de quem abre a porta da geladeira. Quase ninguém suportaria a conta emocional, moral e social que ele acumulou; ninguém em sã consciência defenderia a farsa. Mas a determinação de enfrentar qualquer obstáculo em nome daquilo em que acredita desperta uma inveja secreta.
Jimmy é um Dom Quixote às avessas. É moralmente falho, mas plenamente engajado no seu combate particular. Ele entra no embate porque compreende uma verdade que a maioria tenta ignorar: quem foge da fricção é devorado por ela.
Entrar em conflito é uma exigência da vida adulta. Nossas convicções são diariamente esmagadas pelo cansaço, pelas conveniências e pelo medo. Quando abrimos mão daquilo em que acreditamos para preservar o conforto, cometemos uma espécie de crime contra nós mesmos. A negligência não é inocência; é apenas covardia com justificativa moral.
Better Call Saul trata, em primeiro nível, da urgência de lutar por aquilo que se julga verdadeiro. Em um nível mais profundo, serve de advertência: a coragem de brigar só tem sentido quando submetida a uma ordem superior. Do contrário, o homem vence o combate mundano, mas implode a própria alma.
Muito bom o artigo e muito boa a série também.
Parabéns!