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DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

Posted on 11 de junho de 202619 de junho de 2026

Continuo refletindo sobre o maldito, porém aparentemente necessário, César.

Acho que foi Adão quem nos trouxe esse empecilho. Mas tenho muita cautela ao falar de Adão. Ele não surgiu do nada, nem tropeçou por acaso. Acredito que tenha convivido com Deus por muito tempo. Esse tempo, claro, medido de forma humana, pode ter sido de milhares de anos ou apenas alguns segundos. Pouco importa. Foi uma graça tremenda.

Mas, como nós, ele possuía liberdade. E um dia afrouxou as virtudes e caiu. Fomos expulsos de um mundo pleno para ingressar em um mundo de regras claras, mas difíceis de compreender. Iniciamos essa jornada como principiantes, amadores. Como acontece no tatame com os verdadeiros faixas-brancas.

O faixa-branca, quando inicia sua jornada, acredita que está ali para medir forças. É natural. Trata-se de uma percepção física e verdadeira. Ele precisa desenvolver essa capacidade para sobreviver ao processo. Por isso, quando “César” surge para cobrar impostos, a primeira reação é combatê-lo diretamente. O faixa-branca reclama, aponta o dedo, acusa injustiças e acredita que, ao reunir pessoas suficientes, conseguirá derrubar a tirania de uma vez por todas.

Ele ainda não sabe que César é uma consequência. Não compreende que César é o resultado do tropeço humano, do pecado original e de tudo aquilo que dele decorre. César governa pela ganância, pelo medo, pela preguiça. César governa pelas fraquezas do homem.

O faixa-azul já sente que evoluiu. Continua desejando combater César, mas agora possui argumentos. É aquele indivíduo que descobre a política, a economia e os mecanismos do poder. Percebe que o mundo dos homens é ainda mais injusto do que imaginava. Agora ele não apenas acusa; ele explica. Possui informações, dados, teorias e discursos. Sente-se mais preparado para enfrentar o tirano e denunciar a cobrança injusta dos tributos.

Mas o tempo continua passando e, para aqueles que não abandonam a luta, algumas fichas começam a cair.

A faixa-roxa é a primeira a convidar o sujeito para uma arena de homens. Agora ele pensa um pouco mais. A energia passa a ser percebida como realmente é: escassa. E a estratégia começa a surgir, mesmo sem plena compreensão.

O tirano ainda parece um problema. Os tributos continuam parecendo injustos. Mas algo mudou. Já não basta reclamar. É preciso produzir resultados. É preciso gastar menos energia e construir mais. Muito provavelmente, a única forma de mudar alguma coisa é educando a si mesmo e aos filhos. É preciso construir uma família, transmitir valores, formar caráter e assumir responsabilidades.

Então o combate começa a mudar de lugar.

Passam-se os anos. Surge a marrom. Surge a preta.

E surge também, ao menos é o que começo a vislumbrar, um homem que já não olha para César da mesma forma. Agora César deixa de ser apenas um inimigo e passa a ser uma ferramenta de desenvolvimento humano. Uma resistência necessária que todas as pessoas precisam encarar. 

César precisa ser atendido e superado.

Não porque seja bom. Nem porque seja justo. Mas porque ele é a consequência.

César não é o mal em si. Ele é o resultado da negligência dos bons.

Toda vez que um homem deixa de cumprir suas responsabilidades, alguém precisa assumir aquilo que foi abandonado. Toda vez que uma família deixa de educar, alguém educa em seu lugar. Toda vez que uma comunidade deixa de se organizar, alguém organiza por ela. Toda vez que um povo abandona suas virtudes, alguém assume o controle daquilo que ficou vazio.

Estou chamando esse alguém de César.

Por isso, César precisa ser atendido. O tributo não é apenas uma cobrança financeira. Ele é a conta que chega quando deixamos de cumprir o bem que sabíamos que deveríamos ter realizado.

Ao perceber isso, sinto até misericórdia do tirano César.

E sinto vergonha de ter pedido por justiça tantas vezes, porque suspeito que eu mesmo seria decapitado caso a justiça perfeita viesse sobre mim como deveria.

César é mais do que parece.

Ele é o que o mundo nos cobra pelos tropeços que cometemos. Esse mesmo mundo que foi criado por Deus e entregue aos homens para que exercessem sua liberdade.

Quando César nos cobra, ele está cobrando o preço das nossas ações. Não há injustiça nisso, mas consequência. 

Há uma dívida acumulada por nossos pecados, por nossas omissões e por tudo aquilo que deixamos de fazer quando tivemos a oportunidade.

De modo inverso, Cristo nos salvou. Enquanto César nos apresenta a conta dos nossos erros, Cristo nos oferece a reconciliação.

Enquanto César revela as consequências da queda, Cristo revela o caminho da restauração. Talvez por isso ambos coexistam. Enquanto estivermos neste mundo, continuaremos pagando tributos a César. 

Mas quanto mais compreendo sua existência, menos o odeio. E quanto menos o odeio, mais percebo que a cobrança dele começa em mim.

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