A dúvida é um obstáculo ou um inimigo?
Em muitos momentos, eu julguei se tratar de um inimigo ardiloso que se infiltra em tudo o que eu tentava fazer. É dúvida o tempo todo. Uma certa agonia toma conta, e esse tipo de sentimento, pelo menos em mim, costuma gerar dois tipos de comportamentos opostos: ou paralisa, ou faz pular de uma atividade para outra.
Não gosto de nenhuma destas opções.
Mas eu desconfio que mudei de percepção. Eu julguei mal a dúvida. Até peço desculpas a ela. Julguei se tratar de um inimigo com armas letais. Julguei que eu precisava me defender. Para isso, só havia uma saída: disciplina e foco em uma atividade.
A disciplina é necessária, e focar para desenvolver também. Mas, quando esses dois pilares do crescimento estão servindo apenas como mecanismo de defesa contra um inimigo, temos um problema de enquadramento. Na verdade, temos um problema mal formulado. A dúvida não é um problema. Ela está mais para a casca do ovo que ajuda a fortalecer o passarinho. Ela não é um inimigo.
A disciplina rígida e focada ajuda a elevar nossas habilidades. Mas o campo de batalha é repleto de ciladas, armadilhas e inimigos que nem representam que são inimigos.
Perceber a dúvida como obstáculo muda tudo e faz com que a disciplina tenha liberdade para avançar. A disciplina que busca apenas o aperfeiçoamento é um sistema de defesa, historicamente, fadado ao declínio.
O exército prussiano era famoso por sua movimentação organizada e coletiva. Os generais acreditavam que não havia possibilidade de serem derrotados, pois dominavam todas as possibilidades de guerra. Eles canalizaram a disciplina para eliminar qualquer dúvida que pudesse surgir no campo de batalha. No entanto, o inimigo tinha outras formas de agir. O inimigo agora era Napoleão, que colocou a disciplina voltada para o avanço, e a dúvida como parte das circunstâncias de guerra. O exército de Napoleão movia-se de forma independente, em pequenos grupos. Parecia um caos, mas eram decisões descentralizadas que buscavam vencer. A rigidez, no fim das contas, é o medo de ser derrotado que produz a derrota.
A dúvida como obstáculo nos dá mais vontade de vencer do que medo de perder.