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JIU-JITSU E O COMBATE INTERNO

Posted on 20 de abril de 2026

O treino de Jiu-Jitsu nada mais é do que uma bolha. Sim, uma bolha.

Hoje, quando falamos em bolha, o entendimento mais comum é relacionado aos assuntos e temas, geralmente políticos ou religiosos, com os quais tal indivíduo tende a se envolver. Esqueça bolhas de sabão. As crianças não brincam mais com isso.

No treino, a bolha do cotidiano é substituída por uma ou duas horas. E, por esse período, nenhuma outra bolha de conteúdo ou de som é capaz de interferir. Esse é um relato comum nos treinos.

“Fazia tempo que eu não me sentia presente no lugar onde estou.”

Na primeira análise, é fácil compreender, pois você não quer correr o risco de sofrer uma finalização por ter lembrado que precisa pagar uma conta até a meia-noite. Simplesmente, você não vai lembrar da conta naquele período, porque compreende que está em conflito, está em combate, e suas melhores energias e habilidades foram canalizadas para este duelo.

Imagine se conseguíssemos agir assim durante o dia. Seria preciso fingir que estamos em combate. Fingir? Será que não estamos, de forma ininterrupta, em combate?

Algumas pessoas chegam ao Jiu-Jitsu com a sensação de que estão ali para aprender a lutar. Mas a luta jamais acontece contra um colega. O colega até pode representar um adversário real, mas a luta é sempre interna.

No tatame, temos que lidar com a falta de ordem em nossa vida. Temos que lidar com o descompasso entre o que desejamos e o que conseguimos aceitar que desejamos. O Jiu-Jitsu é um processo de libertação que acontece no campo das ideias.

Somos movidos pelas ideias que conseguimos colocar em prática. A imagem que emitimos é o resultado do que pensamos, dizemos e realizamos. Ninguém tem acesso aos nossos pensamentos, poucos têm acesso ao que dizemos, e todos que nos enxergam podem perceber o que fazemos de fato.

O Jiu-Jitsu combate a incoerência interna, exige que tudo esteja alinhado. Exige que o nosso pensamento esteja alinhado com a realidade e cobra essas realizações. O Jiu-Jitsu é uma forma de pensar, uma forma de enxergar a vida. É uma ferramenta para ajustar nossa visão sobre a realidade.

O tatame nada mais é do que uma grande arena onde podemos ver as dúvidas internas sendo combatidas. As dúvidas que paralisaram as pessoas. Os relacionamentos que aceitamos por medo, por má postura e insegurança. As dúvidas que surgem quando não assumimos que desejamos vencer na vida.

Não se trata de vencer o oponente no tatame. Esse oponente costuma ter um nome em segredo; o colega de treino apenas representa isso. É o trabalho, o cansaço, é a dificuldade em se expressar, a família, a solidão. Ideias que atacam qualquer ser humano. O duelo externo que acontece no tatame é apenas um teatro para uma briga séria que acontece na alma.

A ferramenta do Jiu-Jitsu é um antídoto para que o sujeito volte a enxergar a realidade tal qual ela é.

Muitas ideias circulam por aí com uma boa aparência, mas muitas delas podem afetar a nossa vida de forma trágica. Uma das principais: fugir da dor e buscar o prazer.

A conquista por meio de um sacrifício é mais prazerosa do que o prazer barato. É preciso amadurecer para enxergar esse fenômeno: o sacrifício. Não o trabalho pago, o cuidado por meio de troca, o carinho por interesse, mas o sacrifício apenas pelo certo. É treinar sem buscar a faixa. É treinar pelo processo.

Essa dicotomia é difícil de ser compreendida e, justamente por isso, é mal interpretada de forma coletiva.

Na nossa cultura do cliente, em que tudo gira em torno da economia e das necessidades de uma pessoa abstrata chamada cliente, o conforto e o prazer são moedas muito atraentes. Afinal de contas, o tal do cliente migra para outra marca com a menor oferta de um pontinho a mais de conforto nessa relação.

Essa ideia é uma das piores que o ser humano já abraçou. Não posso calcular o prejuízo que ela já nos causou, mas, para qualquer pessoa atenta ao comportamento e às relações humanas, é possível enxergar que a ideia sobre dor e prazer, deveres e direitos tem feito muitos estragos e dificultado as relações.

Quando pensamos em estratégia, estamos entrando no campo do sacrifício. Um caminho aleatório não costuma exigir esforço. Mas, basta termos um objetivo, teremos que nos esforçar para alcançá-lo.

O primeiro passo da estratégia é desvendar os inimigos. Quando estamos em guerra, e nós sempre estamos e estaremos, a guerra da informação é a mais letal, pois pode levar um grupo inteiro ao declínio por meios persuasivos invisíveis. E, por serem invisíveis, quem os enxerga não ganha créditos, ganha deveres e costuma ser vaiado em praça pública: o dever de persuadir os próximos para que enxerguem o erro e o de aguentar a dor da solidão.

Fugir da dor e buscar o prazer é um dos piores erros que temos cometido. Um tipo de ideia que impede pais e mães de serem duros quando precisam ser, pois temem perder o amor aparente dos filhos. Impede que viciados em drogas de todos os tipos percebam que o único meio para sair de um vício é aceitar a dor e o sacrifício de se afastar da droga e de pessoas que os seguram nesse caminho.

A própria dor que eu senti ao escrever esse texto me dizia para parar, pois não seria necessário; não havia um inimigo à minha frente para ser combatido. Mas eu, somente eu, sabia que precisava escrever esse texto para combater um inimigo interno. Um inimigo interno que busca, há muito tempo, dizer para mim mesmo que uma ideia pessoal não é importante e que posso deixar esse texto para lá. Ninguém irá ler e ninguém irá se importar.

Isso provavelmente é verdade, por isso esse inimigo é tão letal. Mas é verdade, também, que isso não importa. Eu precisava e preciso escrever para vencer um inimigo interno que tenta me impedir de realizar.

Essas ilusões linguísticas estão por aí, aos montes, fazendo suas vítimas. Más ações são combatidas com bons entendimentos. Bons entendimentos surgem do envolvimento contínuo e do sacrifício, em saber que somos chamados ao sobrenatural. Somos chamados aos deveres do espírito, da mente e da carne.

Em resumo, somos chamados a agir como campeões. E os campeões sofrem, simplesmente, por aceitarem que desejam vencer.

Somos campeões quando aceitamos aquela voz que surge lá do fundo da alma. É uma voz de criança, pois costumamos deixar de ouvi-la quando ingressamos na fase adulta.

O Jiu-Jitsu não é somente uma arte marcial, mas é uma forma de voltar a se conectar com a realidade.

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