Vou me arriscar a prever o futuro. Sem futurismo, aliás, sem ser um futurista nos moldes de hoje. Explico.
Considere que hoje a cada 10 eventos que contêm palestras, 10 deles irão abordar o tema da inteligência artificial, e 4 desses dez irão abordar esse tema alegando que estão trazendo uma perspectiva diferente, pois, a cada dez palestras, dez falam a mesma coisa. A perspectiva diferente eu ainda não vi, até porque ninguém está realmente interessado na inteligência artificial. Caso contrário, não teríamos uma avalanche de vídeos, postagens e textos que estão servindo mais para dar vida aos memes do que para contribuir para a expansão de informação.
As pessoas estão realmente interessadas e preocupadas com o seu futuro, com o comodismo que pode estar sendo abalado muito em breve e com o que fazer nesse novo possível cenário. Muitas tarefas sendo delegadas deixam um espaço vago na mente. A boa tese versa que esse espaço agora pode ser preenchido por coisas mais importantes e significativas. Esse espaço vago não tem um substituto, não mais, e o desespero das pessoas começa a aumentar de acordo com a evolução desse processo. Como se estivéssemos presos em uma casa enquanto a enchente aumenta. Vamos subindo em móveis, subimos em cima da casa, mas a água segue aumentando e não temos ideia do que iremos fazer quando formos levados pelo fluxo dessas águas.
Filmes como Mad Max teriam sido uma previsão concreta? Matrix e a digitalização dos corpos são uma possibilidade real?
Ninguém está interessado, de fato, em inteligência artificial. Assim como ninguém esteve interessado na prensa de Gutenberg e em seus livros, que iriam romper com a longa trajetória de transmissão de conhecimento pela oralidade. Mas ninguém estava interessado em livros. As pessoas nem sabiam ler. Como estariam interessadas? Assim como não sabem utilizar inteligência artificial, nem compreendem exatamente para que serve, para que fins ela realmente veio.
Mesmo assim, sempre há uma meia dúzia de pessoas entendidas que compreendem essas questões. São essas pessoas que escrevem livros como Simulacros e Simulações (Jean Baudrillard), livro que inspirou o filme Matrix, que, de certa forma, pensou, raciocinou e escreveu para podermos comprovar que as mudanças tecnológicas afetam as relações humanas em todos os níveis, inclui-se, também, a esfera espiritual.
Pelos idos de 1980, quando esse livro foi escrito, digitalizar os corpos era algo muito interessante para Hollywood utilizar em filmes de ficção científica, mesmo que distante para o entendimento do vivente comum, que apenas quer saber se haverá pão na mesa no dia de amanhã. Mas, por volta dos anos 2000, com a popularização da internet, essa digitalização começou a ficar mais próxima. Ainda assim, mantinha-se contida em caráter de analogia. Um perfil no Orkut ou no Facebook não seria uma espécie de digitalização dos corpos?
Mas eis que chega a inteligência artificial, dominante, insensível às nuances humanas, capaz de eliminar qualquer natureza corrompida, eliminar o pecado por meio de alguma automatização. A promessa é farta: doenças serão eliminadas, a organização da economia será perfeita, nada será desperdiçado, o ser humano tornar-se-á inútil no que se refere ao trabalho e poderá viver sua inutilidade nos braços da, carinhosamente apelidada, IA.
Coletivamente, observe a si mesmo com sinceridade. É como em um filme no qual o pai torna-se obsoleto com a chegada do noivo da filha, que é um jovem, agressivo, inventivo e espirituoso. O pai sente o conflito de não servir mais para o que servia. Ele não protege mais a filha, ele nem mesmo consegue dar conselhos pertinentes. A filha gosta dele, mas segue o noivo, que será seu futuro marido. O pai, percebendo que sua função tradicional foi descartada, imagina que não serve mais para nada, busca competir com o jovem, mas cai no ridículo. Mas trata-se da última queda antes do elixir da sabedoria. Ele voltará renovado, não por superpoderes, mas pela integração de sua consciência. Ele realmente se deu conta de que não serve mais para o que fazia. Agora, a única saída é entregar sua vida para a família, coisa que o jovem ainda não consegue fazer por opção clara. Ele já consegue ser um herói livre de paixões. O jovem ainda precisa de sabedoria para fazer isso.
Coletivamente, é como se estivéssemos dando as mãos em eventos pouco enobrecedores, tentando nos sentir aliviados sobre esse noivo da filha, um novo integrante da nossa coletividade que é muito mais capaz do que nós em tudo o que nos propomos a fazer até aqui.
O ponto de virada do pai é quando ele descobre que é o único capaz de sacrificar-se pela família, pois ele conseguiu ver, ver mesmo, de verdade, que nunca valeu muita coisa e que o sacrifício é tudo o que há. A cruz é tudo o que há para carregar. Tentar superar o noivo é inútil. Mas voltar à base para compreender o sentido da própria vida talvez seja a única cura.
Eu confio no poder do artesanato. No poder do trabalho manual, que é capaz de conectar quem produz com o que é produzido. Todos percebem esse fenômeno quando falamos em comida. Aquela comidinha feita pela vó. Não tem igual. Podemos perceber, também, nos móveis trabalhados por artistas. Eles inspiram, permanecem e causam sensações profundas que não são possíveis de serem descritas sem o uso de figuras de linguagem poéticas. No meu ramo, na comunicação, é a mesma coisa. Há uma exigência por automatização, mas o resultado de uma comunicação estrategicamente pensada de forma artesanal é muito diferente. Ela impacta, conecta, fala sobre a marca e sobre as pessoas envolvidas.
Eu confio no poder do artesanato. Se eu fosse dar uma palestra em um evento de inteligência artificial, eu estaria naqueles 4 em cada 10 que dizem que irão abordar o tema de uma forma diferente.
Em algum momento da palestra eu falaria algo como: