Estou lendo um relato de Bill Walsh, um dos grandes técnicos da NFL no período entre 1980 e 1990. Ele ganhou tudo com o San Francisco 49ers, mas o começo não foi uma maravilha.
Nos primeiros dois anos ele não só perdeu, como no segundo ano bateu o recorde de derrotas da NFL naquele tempo. Confesso que, ao ler o livro, nesse momento, fiquei mais impressionado com a atitude do presidente do clube do que com a do próprio Bill. O presidente bancou a aposta e eles entraram no terceiro ano com muitas críticas. Mas quem acompanhava o trabalho sabia que alguma coisa muito boa estava por vir. Enfim, depois do segundo ano eles venceram tudo durante 5 anos seguidos, e muito se atribui ao papel de Bill Walsh.
O método dele era simplesmente cuidar do processo e deixar o resultado cuidar de si mesmo. Mas, claro, muitos detalhes estão contidos dentro desse pacote. Entre eles, o vernáculo do time.
Como líder, ele sabia que suas ideias precisavam ser incutidas em toda a estrutura do clube. Algumas frases eram repetidas a cada reunião para que todos soubessem sem precisar se esforçar para lembrar. Entre elas:
“Não serei superado em rebatidas em nenhum momento desta temporada.”
Ao que consta, essa frase era pronunciada pelos integrantes da equipe em momentos de crise, o que acionava uma condição mental.
A repetição faz a força. Essa condição mental era acionada pela frase, mas também pelo trabalho que ela implicava no dia a dia. Bill conseguiu incutir essa e algumas outras frases. Uma ação consciente, estratégica, pensada e trabalhada para gerar resultados. E cada pessoa possui esse tipo de frase, ou comando emocional, instalado em si. Mas, como não recebemos milhões de dólares para pensar sobre isso, vamos levando sem nos darmos conta. Podemos ter boas frases, mas muitas delas podem ser prisões.
Ao ler o livro, percebi que no meu tempo de músico havia uma frase que rondava o meu imaginário. Ela não era muito bem formulada, mas eu consigo, hoje, perceber que ela exerceu efeito duradouro, por mais de 10 anos: “Eu não poderia ser superado por ninguém próximo ao meu raio de ação.” E eu estudei, pratiquei desesperadamente. Em uma ocasião, passei em frente a um bar em que eu tocava com frequência e um baixista simplesmente fenomenal, simplesmente muito melhor do que eu, estava tocando. A noite acabou ali. Acordei triste, deprimido como só um jovem consegue ficar, e liguei para um colega de banda com a ideia de desabafar, e ele logo disse: “Cara, tu viu que a banda do Alexandre Pires foi dar uma canja lá no JG?” (JG era o bar, e o baixista da banda do Alexandre Pires era o Cláudio Rosa, um fenômeno do baixo). Aquela informação me aliviou e eu pude seguir normalmente dentro daquela minha pequena bolha, sem ser importunado.
Eu fui guiado por essa frase, e tenho outros exemplos, mas todas elas fizeram morada em minha mente sem que eu as tivesse avaliado e considerado qualquer coisa. Talvez seja a juventude, talvez. Mas deve haver um modo de incutir bons comandos que nos levem para onde devemos ir, que nos impulsionem para vencer os inimigos que costumam nos importunar. Eu vou pensar mais sobre isso: o vernáculo do time, o vernáculo pessoal, pode ser trabalhado e pensado com o poder da razão que Deus nos deu.