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TODO MUNDO NA MESMA PÁGINA

Posted on 2 de outubro de 20267 de outubro de 2026

Os idiomas diferem em som, estrutura e significado. Tendemos a acreditar que a tradução literal resolve o problema do sentido, mas certas ideias perdem a força ao mudar de língua, algumas sequer conseguem atravessar a fronteira, aprisionando uma grande ideia em uma palavra estreita.

No grego antigo, por exemplo, o amor exigia uma estrutura rica e precisa: a paixão romântica era eros; a afeição entre amigos, philia; a entrega espiritual, ágape. Nós, no português, colocamos tudo no mesmo saco: amamos o trabalho, os amigos, a esposa e o café. Em contrapartida, guardamos na palavra saudade uma complexidade que poucas línguas conseguem alcançar.

No mundo dos negócios, porém, o vocabulário dominante empobreceu (ou vem empobrecendo): as palavras costumam ser retiradas da língua do lucro, rentabilidade, entregas e imediatismo financeiro. O vernáculo empresarial raramente é pensado como ferramenta de formação humana. Certamente existem casos diferentes, mas não podemos acessar esses casos. Mas no esporte de alto rendimento, por conta da amplitude de alcance que o esporte oferece, e muitos livros, podemos encontrar líderes que compreendem o poder visceral das palavras dentro do vestiário, e sabem que a cultura de uma equipe reside na precisão dos detalhes.

Bill Walsh, em suas memórias sobre o San Francisco 49ers, insistia em uma expressão fundamental: garantir que todos estivessem na mesma página (on the same page).

No ambiente corporativo brasileiro, a tradução quase automática virou um clichê vazio: “vamos alinhar todo mundo”. Mas alinhar não conta história. Não revela de onde viemos nem para onde vamos. Alinhar evoca uma fila mecânica, onde quem está à frente recebe a ordem e a repassa aos seguintes. É um vício de linguagem burocrático, que, inclusive, não comunica o que o empresário, o líder, quer comunicar. 

Já colocar todos na mesma página significa transferir contexto. Significa permitir que cada um leia o cenário, compreenda o enredo e tire suas próprias conclusões para agir com autonomia. A narrativa está posta; você sabe quem é o seu personagem e entende o que a cena exige dele naquele instante.

Na teoria literária, dar vida a um personagem é um trabalho árduo, mas é o que viabiliza a história: conhecendo sua essência e o enredo, sabemos com naturalidade como ele decidirá sob pressão. O colaborador também é um personagem dentro da narrativa da empresa. Se ele não conhece a história e não acompanha o livro página por página, sua decisão será sempre refém de um novo “alinhamento”, e ele terá de bater à porta do superior a cada vírgula da jornada.

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